quarta-feira, 27 de outubro de 2010

La liberté est bleu


Liberdade não é o que se cria,
sim o que se nasce
E o homem que desfaz-se
da liberdade vazia

Solidão da independência
Prisão interna
O homem preso à consciência
sua inimiga eterna

Em seu primeiro momento
chega a ser um grito forte
Com toda a força de seu intento
que grita "independencia ou morte"
Bloqueia a si mesmo o pensamento
Do que será depois da sorte

A liberdade é azul
Cor primária e fria
É mais do que a ousadia
de um momento de êxtase

e agora, por quem choras ?
És simplesmente livre de tudo
Estas solitário contudo
e agora, porque chorarias ?

Azul é o vazio
é o neutro, é o espaço
que fica após o cansaço
de finalmente ser livre

Das tuas referências vãs
De tudo que ja não se vive
O homem em suas atitudes sãs
Está condenado a ser livre.

Por Paula Lucchesi

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

À Noite

Ela fechou os olhos
Imersa num sonho largo
Ali mesmo, no escuro espaço
dentro do seu pensamento amargo
Na verdade, nem tirou os sapatos

Sua íris ja brilhava há dias
Não segurava mais sua agonia
Não sabia onde as lágrimas guardar
No coração de moça, ja não cabia
O que não sabia como chorar

Finalmente rendeu-se a guria
ao sono mais esperado
quando o seu âmago, mais que esgotado
já nem nas lágrimas se exprimia
quando já chamava de comapanhia
O escuro denso e pesado

Negou-se à doentia rotina
À vida insana e seu ritmo mesquinho
Entregou-se à necessidade de ser menina
De dormir de novo como um anjinho
Nos braços macios da noite

E no seio que a desmama
Aprende que a sina de quem vive
Só nos permite ser livre
Ali na solidária cama
Onde choramos os nossos melindres

Por Paula Lucchesi

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Pausa para reclamações, despeitos e recalques.

"Sem que tivesse que explicar
Não queria explicar mais nada
O basta bastava mesmo
Era mais que suficiente
dessa vez era diferente
desas vez era de verdade
Dessa vez eu virei as costas
dessa vez eu não ligo mais
dessa vez é do jeito certo
que fique pra traz o que eu deixo pra traz"

É sábado a tarde
passou a emoção de sexta
acabaram-se as decisões de ultima hora
porque a hora e esta
Ja deu tempo de lembrar de ontem
Já deu tempo de fazer as unhas
Já deu tempo de quase tudo
Só guardo o tempo pra depois
E nada de decidir
e nada de me aprontar
Vejo que há duas estradas
Chamo o taxi na porta de casa
"É agora" penso
Passo a escolha adiante
Deixo-me em campo neutro
Neutralizo as opiniões constantes
Armo com perfeição a minha própria desilusão
Apenas a noite de sábado
A noite passa por mim
Vou dormir pensando
"Acabou, amanhã é domingo
Não vou mais pensar nisso
Até sábado que vem falta muito"
Domingo nasce com o gosto de sábado
A falta de vontade de levantar pra vida
Mas a consciencia de que quanto mais se demora, pior se fica
Domingo prefiro nem contar
como passa o dia
colora as linhas de cinza e é suficiente
mais do que uma explicação
Domingo a noite pode ser cortado
Porque não passa nada na televisão
Vou dormir e penso
"ufa, passei por mais um
amanhã ja é segunda-feira
ja da pra segurar melhor"
pior do que a semana inteira
é um fim de semana só.


(Por Paula Lucchesi)

antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado.

“Com a mão direita ele segura o ferro que fazia as flamas crescerem. A mão esquerda, a livre, estava ao alcance dela. Lori sabia que podia toma-la, que ele não se recusaria; mas não a tomava, pois queria que as coisas “acontecessem” e não que ela as provocasse. Ela conhecia o mundo dos que estão tão sofridamente à cata de prazeres e que não sabiam esperar que eles viessem sózinhos…. Porque nela a busca do prazer, nas vezes que tentara, lhe tinha sido água ruim: colava a boca e sentia a boca enferrujada, de onde escorriam dois ou três pingos de água amornada: era a água seca. Não, havia ela pensado, antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado. Queria a mão esquerda de Ulisses e sabia que queria, mas nada fez, pois estava usufruindo exatamente do que precisava: poder ter essa mão se estendesse a sua.”

(Clarisse Lispector- O livro dos prazeres)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Dezembro

Na noite intragável
o ar quente sufoca
madrugada instável
O ponteiro se desloca
passam horas, passam dias
que tenho feito à mim?
me preparo para o novo
ou me preparo para fim?
vejo a arte da janela
o desenho se desmonta
vejo a sombra vejo a vela
de um navio que aponta
em dezembro á beira mar..
O sonho que me desperta
que se desperta em mim
o som da janela aberta
o frio do vento, o fogo carmim
vejo ainda a parte mais bela
de um filme de amor
por desacato, choro em despeito
do amor que não é pra mim
em dezembro, a beira-mar
o tempo engole
frio a seco
me descarta, à pedido
Em teus olhos, há perdido
um encanto por desprezo
Canto à noite, canto ao dia
molho os pés num frio riacho
nas asas do vento, me despacho
desapareço por um dia
de dezembro,à beira-mar.

(Por Paula Lucchesi)

domingo, 30 de maio de 2010

Rotina do nosso amor

Hoje não te amo tanto
Apenas te amo
Se me despreza
Não desprezo-te tanto
apenas desprezo-te
Ontem o quanto te amei
É incontavel
Já hoje, me acostumei
estou estável
mas o nosso amor
É instável
mutável
Se me odeias
Amo-te mais
Se me procuras
Não te procuro mais
Pois não encontro
Encantos tais
Mas amo-te ainda
Cada vez mais
Amo-te tanto
Que já não te conto
Se amo-te mais
Mas nunca te escondo que amo
Nunca me escondo, jamais
Se encontro, te canto
mas não te conto
O que se passa por trás
Do quanto te canto
te quero, porém não te quero
se não amar mais
Mas as vezes não quero
Só amo te mais
Guardado no amor que não quero
Não quero por amar demais.

(Por Paula Lucchesi)

Outra vez, mais uma vez...

Faz algum tempo, eu não sabia de nada
Eu vivia quando tudo era novo
cada sorriso, um segredo
cada nova história, um novo medo
e pra cada risco uma vontade maior ainda
de correr o risco de novo.
Naquela história de tudo ou nada
sem nada a perder, fui me perdendo
sem medo de viver, fui vivendo

Cada dia, um dia um dia novo
Repassei por cada passo
Caminhei de volta em minhas estradas
Reli a minha história
Sorri com as melhores fases
Sublinhei as melhores frases
mas não ousei apagar nada

Já chamei o fim de começo
Já comecei pelo lado do avesso
Já fiz tudo errado
Já desenhei meus melhores planos
Já abracei meus melhores sonhos
Já fechei as mãos bem forte pra segurar a ilusão
Já parti em mil pedaços, um pedaço do meu coração

Hoje ainda não sei de nada
Ainda morrendo de medo, insisto
Ainda corro os mesmos riscos
Das coisas que ainda não sei
Ainda me perco na história
Sorrio outra vez,
Mais uma vez.

(Por Paula Lucchesi)